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Cantares de Solidão
CANTARES DE SOLIDÃO

Um sino toca  ao longe:
é tarde no  meu sertão
vento sopra ao contrário,
seca olho e plantação..
Tão longe o  pensamento
Tão perto o violão
Toada na ora-pro-nobis
Rebento chegando então.
As beatas ligeiras
De  rosário  na mão
rezam ave-marias ,
em dia de procissão.
Sou homem assustado:
das sombras tenho receio
Vivo sempre acordado
faço da  lua esteio.
Dizem que  lobisomem
espreita a hora certeira
atras da serra vermelha
Para levar mulher solteira

Nessas paragens de sono
de silêncio e ventania
muita mulher morreu
A desafiar valentia
Tem jagunço de asfalto
rondando a terra da gente
Matam ,prendem rebelde
que desafia tenente.
Já nem tenho esperança,
foi tanta tarde amarela
tanta poeira na pele
tanta sêde maldita
tanto bezerro morto
tanto menino magrinho
tanta vida desfeita
No  vale da terra do sino...
Minhas mãos calejadas
pegam balde e água no açude
Mulher  aqui  não falta
todo tempo parindo.

Terra de homem forte
Velho na  rede dormindo
menina-moça sem dote
Moço  sem dente sorrindo..
E o tempo que não passa
a redenção que não chega
O destino passa longe
E a sorte na contra-mão:
Um sino toca ao longe
nas tardes do  meu sertão.

Marcia Tigani
MARCIA TIGANI
Enviado por MARCIA TIGANI em 17/06/2020


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Imagem de cabeçalho: jenniferphoon/flickr