Textos

TANGO


Na maré cheia  algas verdes
Trazidas à praia, enroscam se
Como  polvos  imaginários
abraçam nossos pés
com seus  tentáculos

Somos dois estranhos
À  frente do verbo amar
que não se define nunca
O amor está  em ruínas ?
O amor é mar ?
É morte o amor
que se põe à amar?


O amor tem mãos frias
O amor  é réquiem
  Elegia do amor :
o amor em blues
Filete de cristal  
.pedaço de  concha
Casca de coral
Filigrana

Eu que não sei falar de amor
Além do amor ao coletivo
Eu que suponho amar
sinto agora nos dedos do pé
a areia áspera, rascante
argila que  sepulta amor

Quem ressuscita o  amor ?
Os que viveram guerras
Íntimas e intransferíveis
pelos desertos do mundo
Amor, guelra de peixe
Por  onde circula  ar
As gueixas  submissas
desnudam se ao amor
O amor que per si
insiste em ser poema
Pois  poetas , esses loucos
em cuja mente em branco
se  colore  a palavra amor
Inventaram o verbo amar

Como um fóssil numa pedra
destino milenar inscrito
em sânscrito : uma odisseia
uma novela , um drama
O amor pelos tempos
das pestes, do cólera
  da  inquisição
Do tablado de Shakespeare
ao teatro do absurdo

O amor de  Bizet, o amor
de Carmem ,das  carmesitas
O amor proibido dos padres
O amor interdito de Agnes
dos balcões de Verona
ao amor livre em Woodstock
Amor não se conjuga
O amor é um tango
Onde está senão  alí
Sobre  areia , declarado
Até que uma onda  o apague

    MARCIA TIGANI
MARCIA TIGANI
Enviado por MARCIA TIGANI em 27/08/2024
Alterado em 27/08/2024


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Imagem de cabeçalho: jenniferphoon/flickr