AGRIDOCE
Sentada à frente da caixa
observo-os um à um :
vermelhos ,rutilantes.
Em fileiras , o cheiro agridoce
espraia-se .
Adornados por folhas
como topete sobre testa,
aguardam que eu os devore
Eu ,no entanto, prefiro contempla-los:
minúsculos pontilhados negros
sobre corpos delicados .
O azedume desperta meus sentidos
apenas por segurar a embalagem
e deseja-la.
Vejo que os maiores estão por cima
sustentados pelos raquíticos, os frágeis
uns inclusive descorados, verdolengos,
colocados de maneira a criar uma ilusão .
Penso que todos os frutos rubros,
azedos, com pontilhados negros sobre a pele
são suculentos e deliciosos.
Honrosamente dispostos de maneira
(nada ) inocente , numa espécie
de vitrine desejante e ilusionista,
são a projeção do belo e do sórdido .
Expressão daquilo que nas profundezas
é o modo (des)humano de seduzir .
MARCIA TIGANI
Enviado por MARCIA TIGANI em 30/09/2025