ZARZUELA
ZARZUELA( Para Pedro Alles )
No prato raso ,branca encarnação do paraíso :
Eros mostra uma face (outra face obscura ).
Tece a linha o desejo gástrico da fome ancestral ,
Da Catalunha à Andaluzia que rescendem à alho .
O azeite em jorro banha a carne
enquanto o touro vence o toureiro :
O sangue escorre em peito aberto
O animal segue saga dos mitos inauditos .
Inominado, mas touro, que em sua envergadura
é símbolo de um deus indestrutível
olha de cima abaixo sua caça
(A visão mais perfeita da pequenez humana).
Nas montanhas rumina erva , raiva ,vingança
e estanca em La Mancha ao ouvir o palmilhar
do cavalo de Sancho Pança e seu senhorio , o louco ,
aquele que acredita existir em algum lugar o justo e o bom ,
aquele que acometido pela sífilis deformou sua visão de mundo .
Pelas vielas de Extremoz à Castilha la cumparsita.
Da figura bruta da raiz ibérica às conquistas Mouras,
das filigranas nos brincos das mulheres ,
o touro , o cavalo e o homem alucinado
Todos tem fome de quê? Todos anseiam o quê?
E tudo é mesmo devaneio : a carne ao toureiro, capim verde ao cavalo e Dulcinéia.
Deita se alho frito na panela, pertences , pimentão,
lulas, peixe, mexilhão enamorados
na paellera de ferro, enquanto miçangas
leques, babados , adornam mulheres .
Seda negra bordada em xales envolvem escápulas .
A força do sapateado flamenco é de sedução e guerra:
O tablado das eras cheira a alho frito .
Instiga-se instintos de homens embebedados:
O touro, o cavalo e o homem alucinado
caminham em silêncio, lado à lado
MARCIA TIGANI
Enviado por MARCIA TIGANI em 16/02/2026