Textos

Menino do Rio
“O morro não tem vez
e o que ele fez
já foi demais.
Mas olhem bem vocês,
quando derem voz ao morro
toda a cidade vai cantar“

         (Antônio Carlos Jobim/ Vinícius de Moraes)


Tarde de julho, Rio de Janeiro, bairro de Realengo, Hospital Padre Olivério
Kraemer,1979.

Dois atendentes de enfermagem , um médico, uma estudante de medicina .À frente
de seus olhos , na rua , uma maca , uma jovem preta, moradora da favela do Batanzinho,
gritando de dor , pernas e coxas entre abertas mostrando suas intimidades .Sangue
jorrando pela maca e pelo asfalto. Urgência obstétrica: Mulher sem qualquer atendimento
pré- natal durante toda a sua gestação .Seu barraco era o último do morro, no topo, cuja
dificuldade de acesso a impedia de subir e descer com facilidade durante toda a gravidez,
em busca de uma vaga para atendimento ginecológico na UBS.
     Destino traçado séculos antes, nas origens histórico- políticas do povo brasileiro, assim
nos ensinou Darcy Ribeiro. .Exclusão e miséria contrastando-se com a riqueza dos edifícios
da zona Sul .O Rio de Janeiro que não se vê ,que circunda como uma muralha intransponível
a cidade maravilhosa. Longe,muito longe de onde vive a “ garota de Ipanema”.
   Uma mulher negra, olhos vermelhos do choro contínuo, com evidentes sinais de
desnutrição. Entre suas pernas, uma apresentação geral anômala, distócica:bebê
prematuro ,de cerca de 7 meses , tentando vir ao "mundo das estranhezas", da pobreza
estrutural , não através da cabeça ( que deveria aparecer primeiro , fosse parto normal) mas
tentava sair de sua mãe através de duas minúsculas pernas arroxeadas , já em evidente
sofrimento fetal, sem tempo para uma cesariana.
Risco para o bebê e para a gestante. Correria pelos corredores e no centro cirúrgico
onde o alto grau de contaminação bacteriana havia sido noticiada no velho Jornal do Brasil dias antes , colocando a vida das parturientes e de seus bebês em risco .Nenhuma providência tomada pela então Vigilância Sanitária.
    Por entre as pernas e dentro da vagina da mulher, folhinhas de arruda, alí colocadas com a
fé da avó da criança , preta velha, dona de terreiro de umbanda , cuja ancestral cultura afro já vinha sofrendo constantes tentativas de apagamento pela invasão e destruição do local por fiéis fundamentalistas neopentecostais, que à época já instalavam seus templos no morro, sob a “proteção” dos chefes de tráfico de drogas e armas.
     As folhas de arruda por entre as coxas da gestante eram o último símbolo de esperança,
pois o Estado falhara.De novo.
     Às 17 horas, no inverno abafado do Rio de Janeiro, o céu de Realengo encheu-se de
balões coloridos, de diversos formatos , para o concurso do balão mais belo e criativo de
Realengo. Eram muitos, formando uma nuvem multicolorida enfeitando o céu tão azul , um
"céu de brigadeiro”. À época,soltar balões principalmente nas periferias do Rio de Janeiro
era comum e permitido .Enquanto balões subiam diante de uma multidão extasiada pela
beleza, no centro cirúrgico um choro ecoou: era menino, brasileiro e como diria  Euclides
da Cunha em " Os sertões" , ser brasileiro é ser antes de tudo um forte. Carioca de
Realengo que já nascera mostrando primeiro seus pés , numa primeira atitude de
rebeldia.
MARCIA TIGANI
Enviado por MARCIA TIGANI em 08/06/2026


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Imagem de cabeçalho: jenniferphoon/flickr