Textos

 

 

 

 

 

ODE AO CAPITALISTA

 

Eu te saúdo, saúva

ó chupim, ó idólatra

bunda-mole, snob

saúdo-te, gabola!

 

Eu te saúdo, capital

prazeres somente na mesa

viagra no bolso, panaca

jabá em paraíso fiscal.

 

Eu te saúdo, sugadouro

voyeur capitalista

cédulas como fetiche

bandeira à meio pau

 

Eu te saúdo, ciclope

olho gordo no vil metal

erotismo de fora, asséptico

amor à CDB, RDB, não sei o quê!

 

Eu te saúdo, patranha

Deus, pátria, família

saúdo tua única verdade:

ser droite, ser droite …

 

CINERÁRIO

 

Para Marielle Franco

 

Morrer sem grito

cingida e inerte

liturgia de árvore

quase infinita.

 

Sibila a voz, o canto

a arritmia

vida salga a carne

e a fagocita.

 

Morrer sem mistério

ou exantema.

 

Silenciada resina

que viscosa adere

à pele e escorre fria

e lateja em sina

como a mão que a fere

 

Matar a palavra úmida

que da boca verte.

 

Matar a infância, o verso

o riso.

 

Matar a ideia, a pedra

o signo.

 

Matar a estrada

luz em exercício

 

Viver para relembrar

a terra, as cinzas

o que ainda sobra

do caule esmigalhado.

 

Viver para contar

a geométrica forma

da ausência, ou o grito

espesso do amor silenciado.

 

PERSEIDAS

 

I

 

Sou estrangeira

em minha própria terra

estrelas cadentes

sobre meus cabelos.

 

Poeira cósmica

a luzir em minhas órbitas

sou a estranha deitada

sobre pedra gris.

 

Contemplo o reverso

da ideia do existir.

 

II

 

Um sonho acordado

é um dejá-vù

crivado de imagens

ígneas e obscuras

 

Meu corpo sobre a pedra

fósseis sob minha pele

existo como islamita:

sou rocha bruta

e paleta de cromo

 

III

 

Se por mero acaso

Ou telepatia pura

Quisesses entender

A ionosfera

 

Ou a Constelação de Aquário

verias um opérculo

luzidio na vereda

do meu decote.

 

O calcáreo

a tintura de ópio

ou lêmure voador:

são partes do meu eu

 

IV

 

Se Mefistófeles

falasse em iídiche

o estridor de sua voz

mataria pomos.

 

Flores, luzes

Buscaria a mim

a islamita)

arrancaria meus rizomas

sem anestesia:

 

Na olaria do ódio

não há estrelas cadentes

 

A TEMPESTADE

        Para Dostoievski 

 

Lapso de tempo-luz

relâmpago fugaz:

plenitude

 

Adocicado odor

de cravos na janela:

harmonia

 

Vida em segundos

suprema paz na Terra

memórias.

 

Dèjá-vu, jamais vú

cristais pendurados brilham

felicidade revisitada.

 

Universo inteiro na retina

passa em revoada:

pássaro cintilante.

 

No exílio, na neve

mastigar balas de goma:

um banquete.

 

Grande mal abraça

o corpo franzino

do prisioneiro.

 

A liberdade é prata

na branquitude infinita

da Sibéria.

 

Riscos caleidoscópicos

multicoloridos e uma voz:

alucinação.

 

Vozes de mulheres

cântico gregoriano

epifania.

 

Deus está em sua órbita

Jesus tenta falar em vão

pela tua boca.

 

Nenhuma ode ou poema

apenas silêncio súbito

precede o terremoto.

 

Corpo ao chão, espástico

alva espuma escorre:

convulsão.

 

Membros retesados

mãos fechadas (em prece?)

salivação.

 

Dez anos de exílio

dez anos de solidão

degredo.

 

Crime e castigo

nas mãos trêmulas do autor

a revolução.

MARCIA TIGANI
Enviado por MARCIA TIGANI em 29/09/2026
Alterado em 29/09/2026


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Imagem de cabeçalho: jenniferphoon/flickr