Textos

CINERÁRIO


     (Para  Mariele Franco)

Morrer sem grito

cingida  e  inerte

Liturgia  de árvore

quase  infinita

Sibila  a voz, o canto

a arritmia

Vida  salga a carne

e  a   fagocita

Morrer sem mistério

sem  exantema

Silenciada a  resina

Que viscosa adere

à pele e escorre fria

e lateja

em sina, como a  mão

que  a  fere

Matar a   palavra   úmida

que da  boca   verte

Matar a infância, o  verso

o  riso

Matar  a  idéia, a pedra

o signo

Matar a  estrada

ou luz em exercício

Viver  para relembrar

a  terra,  as   cinzas

O que  ainda sobra

Do  caule   esmigalhado.

Viver  para  contar

a  geométrica forma

da  ausência, ou  o grito

espesso do  amor silenciado.

          Marcia Tigani
MARCIA TIGANI
Enviado por MARCIA TIGANI em 03/10/2026


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Imagem de cabeçalho: jenniferphoon/flickr